Dá-lhe, Dalhe ou Dale: Qual a Forma Correta?

Há expressões que ouvimos tantas vezes que quase nunca pensamos em sua estrutura. Dá-lhe é uma delas. Em uma arquibancada, numa conversa animada ou durante uma competição, é perfeitamente natural ouvir alguém gritar algo semelhante a “dale!”. Quando chega a hora de escrever, porém, começa a confusão: existe acento? Tem hífen? Aquele som de lh realmente precisa aparecer na escrita? Para piorar um pouco, dale existe em espanhol. Ou seja: dessa vez, a dúvida não é tão absurda quanto pode parecer à primeira vista.

Dá-lhe, dalhe e dale: por que essas formas causam dúvida?

Quando estamos escrevendo em português e queremos utilizar a construção formada pelo verbo dar seguido do pronome lhe, temos:

DÁ-LHE

Essa grafia preserva três informações importantes:

DÁ → FORMA DO VERBO DAR
– → HÍFEN
LHE → PRONOME PESSOAL ÁTONO

Já:

dalhe

elimina tanto o acento quanto o hífen.

E:

dale

elimina o acento, o hífen e a consoante representada pelo dígrafo lh.

Essa última forma merece uma análise à parte, porque ela realmente existe:

em espanhol.

O que significa “dá-lhe”?

O significado depende do contexto.

Em seu funcionamento sintático mais transparente, podemos ter:

Dá-lhe o livro.

A estrutura pode ser entendida como:



VERBO DAR

mais:

LHE

A ELE / A ELA / A VOCÊ

Assim:

Dá-lhe o livro.

equivale, conforme o contexto, a algo próximo de:

Dá o livro a ele.

Nesse emprego, a estrutura gramatical continua bastante evidente.

Por que usamos hífen em “dá-lhe”?

Porque o pronome:

lhe

aparece:

depois do verbo.

Esse tipo de colocação recebe o nome de:

ÊNCLISE.

Na escrita portuguesa, os pronomes pessoais átonos colocados encliticamente ligam-se ao verbo por:

hífen.

Compare:

  • dá-lhe;
  • entregou-lhe;
  • disse-lhe;
  • mostrou-me;
  • contou-nos;
  • ajudou-o.

O Acordo Ortográfico estabelece explicitamente o emprego do hífen na ênclise.

Por isso:

DÁ + LHE

DÁ-LHE.

O que é ênclise?

A ênclise é a colocação de um pronome clítico depois do verbo.

Por exemplo:

Entreguei-lhe o documento.

Temos:

ENTREGUEI + LHE

Como o pronome aparece depois da forma verbal:

ÊNCLISE.

Outro exemplo:

Dá-lhe o caderno.

Novamente:

VERBO + PRONOME

e, por isso:

HÍFEN.

De onde vem a palavra “ênclise”?

Aqui temos uma origem:

grega.

O termo português ênclise está relacionado ao grego:

égklisis,

com sentido relacionado a:

inclinação.

No vocabulário linguístico, a palavra passou a designar a situação em que determinado elemento átono se apoia fonológica e sintaticamente na palavra anterior.

No português:

VERBO + CLÍTICO

DÁ-LHE

é um exemplo típico.

O que é um pronome clítico?

Os chamados:

pronomes clíticos

são formas pronominais átonas que possuem forte dependência fonológica em relação ao verbo.

Entre elas encontramos:

me
te
se
o
a
lhe
nos
vos
os
as
lhes

Esses pronomes podem ocupar diferentes posições em relação ao verbo.

Qual é a diferença entre próclise e ênclise?

Compare:

Ele lhe deu o livro.

Aqui:

LHE + VERBO

Temos:

PRÓCLISE.

Agora:

Ele deu-lhe o livro.

Temos:

VERBO + LHE

Logo:

ÊNCLISE.

Estrutura Nome Exemplo
pronome + verbo próclise Ele lhe deu.
verbo + pronome ênclise Ele deu-lhe.

É importante perceber:

LHE DEU → SEM HÍFEN

mas:

DEU-LHE → COM HÍFEN.

Então todo pronome depois do verbo recebe hífen?

Quando temos os pronomes pessoais átonos ligados encliticamente ao verbo na escrita padrão, o hífen marca essa ligação.

Exemplos:

  • ajude-me;
  • conte-lhe;
  • levante-se;
  • entregou-nos;
  • dá-lhe.

Por isso, escrever:

dalhe

elimina uma marca gráfica que possui função gramatical.

Por que “dá” tem acento?

A forma:

é um monossílabo tônico terminado em:

A.

Segundo as regras de acentuação gráfica, recebe:

acento agudo.

Além disso, o acento permite distinguir visualmente:

do verbo:

DAR

da forma:

DA

resultante da contração:

DE + A.

Compare:

Ele dá o livro.

e:

O livro da professora.

São estruturas completamente diferentes.

O acento desaparece quando colocamos “lhe”?

Não.

Temos:



DÁ-LHE

A colocação do pronome depois do verbo não elimina o acento da forma verbal.

Por isso:

DÁ-LHE.

Não:

DA-LHE.

“Dá” pertence a qual verbo?

Ao verbo:

DAR.

Trata-se de um dos verbos mais frequentes e semanticamente produtivos da língua portuguesa.

Pode apresentar sentidos como:

  • entregar;
  • oferecer;
  • conceder;
  • produzir;
  • causar;
  • atribuir;
  • bater;
  • ser suficiente;
  • resultar.

Compare:

  • Ela deu um presente.
  • A árvore frutos.
  • Isso me deu medo.
  • O dinheiro não deu.
  • Ele deu um soco na parede.

É impressionante o tanto de trabalho que um verbo de três letras consegue fazer.

Qual é a origem do verbo “dar”?

O português:

DAR

vem do latim:

dare.

A continuidade entre as formas é bastante perceptível:

LATIM
DARE

PORTUGUÊS
DAR

O significado central relacionado a:

entregar ou transferir

permaneceu extremamente produtivo no português.

O que é “lhe”?

Lhe é um:

pronome pessoal átono.

Tradicionalmente, associa-se à terceira pessoa e desempenha sobretudo função de:

complemento indireto.

Por exemplo:

Entreguei o documento ao professor.

Podemos substituir:

ao professor

por:

lhe.

Assim:

Entreguei-lhe o documento.

Nesse caso:

LHE = AO PROFESSOR.

“Lhe” significa sempre “a ele”?

A explicação escolar costuma apresentar:

LHE → A ELE / A ELA.

Esse esquema é útil, mas o funcionamento real dos pronomes é mais amplo.

Dependendo do sistema de tratamento empregado, lhe também pode relacionar-se a:

você.

Por exemplo:

Vou lhe explicar o problema.

Em muitas variedades brasileiras, lhe pode referir-se diretamente ao interlocutor.

Portanto, mais importante do que decorar apenas uma tradução é compreender sua função:

o pronome retoma um complemento relacionado ao verbo.

Qual é a origem do pronome “lhe”?

A origem também está no:

latim.

O português lhe remonta ao latim:

illi,

forma dativa de:

ille.

Seu valor era relacionado a:

A ELE
A ELA.

Essa origem ajuda a compreender por que lhe tradicionalmente aparece associado ao:

dativo

e ao:

complemento indireto.

O que é dativo?

Na tradição gramatical das línguas com casos, o:

dativo

está frequentemente associado ao destinatário, beneficiário ou participante para quem alguma coisa é dada, dita ou destinada.

Veja:

Dei o livro ao aluno.

Temos:

O LIVRO → AQUILO QUE FOI DADO

AO ALUNO → DESTINATÁRIO

Substituindo:

Dei-lhe o livro.

O pronome:

lhe

representa o participante que recebe alguma coisa.

Qual é a relação com outros pronomes pessoais?

O estudo de lhe faz parte de um tema maior:

os pronomes pessoais.

No Da Aula, esse assunto também aparece em:

Entre Eu e Você ou Entre Mim e Você: Como Usar?

Nesse artigo, a diferença entre:

EU → forma de sujeito

e:

MIM → forma oblíqua

ajuda a compreender que os pronomes apresentam formas diferentes conforme a função sintática.

O princípio é útil aqui:

LHE

FORMA OBLÍQUA ÁTONA

“Lhe” e “mim” são o mesmo tipo de pronome?

Ambos pertencem ao grupo dos:

pronomes pessoais oblíquos.

Mas existe uma diferença:

lhe

é:

átono.

Já:

mim

é:

tônico.

Pronome Tipo Exemplo
lhe oblíquo átono Eu lhe entreguei o livro.
mim oblíquo tônico O livro é para mim.

Para aprofundar essa diferença:

Para Mim Fazer ou Para Eu Fazer? Entenda o Uso Correto

“Dá-lhe” está no imperativo?

Em construções como:

Dá-lhe o livro!

a forma:

corresponde ao:

imperativo afirmativo de segunda pessoa do singular.

Ou seja:

TU → DÁ

Compare:

Dá tu o livro a ele.

Com o pronome:

Dá-lhe o livro.

E com “você”: é “dá-lhe” ou “dê-lhe”?

Se a ordem estiver dirigida a:

você

a forma tradicional do imperativo é:

DÊ.

Assim:

TU → DÁ-LHE O LIVRO.

VOCÊ → DÊ-LHE O LIVRO.

Essa distinção é útil em questões sobre:

  • imperativo;
  • pessoas gramaticais;
  • tratamento;
  • concordância verbal.

“Dá-lhe” pode não ser uma ordem literal?

Sim.

É justamente aí que a expressão fica mais interessante.

Imagine uma torcida:

Dá-lhe, Brasil!

Ninguém necessariamente está pedindo que o Brasil entregue algum objeto a outra pessoa.

A expressão passou a funcionar como:

fórmula de incentivo.

Dependendo do contexto, aproxima-se de:

  • vamos!
  • força!
  • vai!
  • continue!
  • vença!

Temos, portanto, uma ampliação do significado original da construção.

“Dá-lhe” pode funcionar como interjeição?

Em usos de incentivo, torcida ou encorajamento, a expressão pode adquirir:

valor interjetivo.

Veja:

Dá-lhe, time!

A função principal já não é simplesmente organizar uma relação sintática entre:

dar + destinatário.

A expressão inteira transmite:

incentivo.

Esse tipo de mudança mostra como uma estrutura originalmente verbal pode passar a exercer uma função:

pragmática e discursiva.

O que significa dizer que a expressão adquiriu valor interjetivo?

Interjeições são palavras ou expressões fortemente relacionadas à:

  • emoção;
  • reação;
  • chamamento;
  • incentivo;
  • avaliação do falante.

Por exemplo:

Força!

Vamos!

Bravo!

Dá-lhe!

Nesse último caso, uma construção que possui origem verbal passa a funcionar quase como uma unidade expressiva.

É algo bastante comum nas línguas: expressões gramaticais podem desenvolver novos usos sem perder completamente sua história anterior.

O que significa “dá-lhe que dá-lhe”?

Também encontramos:

DÁ-LHE QUE DÁ-LHE.

A construção pode transmitir uma ideia de:

  • repetição;
  • insistência;
  • continuidade;
  • persistência em determinada ação.

Por exemplo:

E ele, dá-lhe que dá-lhe, continuava falando do mesmo assunto.

O Dicionário Priberam registra justamente:

dá-lhe que dá-lhe

como exemplo de estrutura enfática e repetitiva.

É um bom exemplo de como a expressão pode se afastar bastante do sentido literal de:

entregar algo a alguém.

O que significa “e ele a dar-lhe”?

Outra expressão registrada no português é:

E ele a dar-lhe!

Nesse contexto, pode significar algo próximo de:

continuar;
insistir;
teimar.

Por exemplo:

Eu já tinha explicado tudo, mas ele continuava a dar-lhe.

A expressão mostra novamente que:

DAR + LHE

pode desenvolver sentidos idiomáticos que não podem ser interpretados apenas palavra por palavra.

Por que algumas pessoas escrevem “dalhe”?

Provavelmente por influência direta da:

fala.

Quando pronunciamos:

dá-lhe,

não pronunciamos o hífen.

O hífen é:

uma convenção da escrita.

Consequentemente, quem registra a expressão apenas pela audição pode produzir:

dalhe.

É um exemplo de diferença entre:

ORALIDADE
e
ORTOGRAFIA.

Por que algumas pessoas escrevem “dale”?

Existem pelo menos duas explicações possíveis.

A primeira é:

uma grafia baseada na pronúncia.

Em determinadas variedades ou realizações da fala, o som representado por:

LH

pode sofrer alterações.

Se alguém tenta escrever apenas aquilo que percebe auditivamente, pode acabar chegando a:

dale.

A segunda explicação é:

a influência do espanhol.

“Dale” existe em espanhol?

Sim.

Essa é uma distinção importante.

Em espanhol encontramos:

DALE.

A palavra está relacionada ao verbo espanhol:

dar

e ao pronome:

le.

Ao contrário do português, o espanhol escreve essa combinação:

sem hífen.

Assim:

PORTUGUÊS → DÁ-LHE

ESPANHOL → DALE.

Isso é muito importante para não afirmar simplesmente que:

“dale não existe”.

Ela existe:

em outra língua.

O que “dale” significa em espanhol?

Em espanhol, dale pode aparecer literalmente em construções equivalentes a:

dê a ele / dê a ela

ou adquirir diferentes valores coloquiais.

A Real Academia Española registra inclusive:

dale

como:

interjeição coloquial.

Também registra expressões como:

dale que dale.

Em diferentes variedades hispano-americanas, dale pode ainda ser empregado com sentidos próximos de:

  • vamos;
  • continue;
  • está bem;
  • vá em frente.

Então posso escrever “dale” em português?

Depende do que você está fazendo.

Se pretende escrever a expressão:

portuguesa

de acordo com a ortografia padrão:

DÁ-LHE.

Se estiver reproduzindo:

  • uma fala em espanhol;
  • uma citação espanhola;
  • uma letra ou expressão estrangeira;
  • um uso deliberadamente hispânico;

então:

DALE

pode ser perfeitamente adequado.

A pergunta correta não é apenas:

“essa sequência existe?”

mas:

“em qual língua e em qual contexto?”

Dá-lhe e dale são cognatos?

As duas construções apresentam uma proximidade histórica muito interessante.

Português e espanhol são:

línguas românicas.

Ambas desenvolveram-se a partir do:

latim.

O verbo português:

dar

e o espanhol:

dar

remontam ao latim:

dare.

Também existe parentesco histórico entre os sistemas pronominais.

Entretanto, cada língua desenvolveu:

  • suas próprias regras ortográficas;
  • suas próprias formas pronominais;
  • suas próprias regras de ligação gráfica.

Por isso:

PORTUGUÊS → DÁ-LHE

e:

ESPANHOL → DALE.

Por que o espanhol não usa hífen em “dale”?

Porque as convenções ortográficas das duas línguas são diferentes.

No português, a ênclise é marcada graficamente:

DÁ-LHE.

No espanhol, o pronome enclítico é escrito unido diretamente à forma verbal:

DALE.

Compare:

Português Espanhol
dá-lhe dale
diga-me dime
levanta-te levántate

As línguas podem compartilhar uma origem histórica e, mesmo assim, desenvolver:

convenções gráficas diferentes.

“Dalhe” pertence à ortografia portuguesa?

Para representar a construção:

dá + lhe,

não.

A forma:

dalhe

apresenta dois problemas principais:

  1. retira o acento de ;
  2. retira o hífen da ênclise.

Assim:

DALHE ✗

quando a intenção é escrever a expressão portuguesa segundo a norma ortográfica.

O hífen de “dá-lhe” foi retirado pelo Acordo Ortográfico?

Não.

Esse é um ponto que pode causar confusão porque o Acordo Ortográfico alterou diversas regras relacionadas ao hífen.

Entretanto, o documento estabelece expressamente:

o emprego do hífen na ênclise.

Por isso continuam sendo escritas formas como:

  • dá-lhe;
  • entregou-lhe;
  • ajude-me;
  • levante-se;
  • deixa-o.

Não devemos aplicar mecanicamente as regras dos prefixos ao hífen que aparece entre:

verbo e pronome.

“Me dá” ou “dá-me”?

Aqui entramos em uma questão de colocação pronominal e também de:

variação linguística.

No português brasileiro coloquial, é extremamente frequente:

Me dá o livro.

Na tradição normativa mais formal:

Dá-me o livro.

é a construção normalmente apresentada para o início de uma oração imperativa.

A própria Academia Brasileira de Letras observa que construções iniciadas por pronome átono são comuns na linguagem coloquial brasileira, embora a tradição normativa recomende a posição pós-verbal em determinados contextos formais.

Ou seja, precisamos distinguir:

DESCRIÇÃO DO USO REAL
e
NORMA FORMAL.

“Dá-lhe” pertence à linguagem formal ou informal?

A estrutura gramatical:

verbo + lhe

não é, por si só, informal.

Podemos escrever:

Entregue-lhe o documento.

em um texto perfeitamente formal.

Entretanto, o uso:

Dá-lhe!

como grito de:

  • torcida;
  • encorajamento;
  • incentivo;
  • insistência

é fortemente associado a:

contextos coloquiais e expressivos.

O contexto muda a classe ou a função de “dá-lhe”?

Pode mudar a maneira como analisamos seu funcionamento discursivo.

Compare:

Dá-lhe o documento.

Temos claramente:

VERBO + PRONOME.

Agora:

Dá-lhe, Brasil!

A expressão inteira funciona como:

incentivo.

Sua estrutura histórica continua reconhecível, mas seu funcionamento comunicativo aproxima-se muito de:

uma interjeição.

É um bom exemplo de como:

gramática e pragmática

podem se encontrar dentro da mesma expressão.

Como o assunto pode aparecer em provas?

Exemplo 1 — ortografia

Assinale a alternativa adequada à norma-padrão portuguesa:

  • A) Dalhe o documento.
  • B) Dá-lhe o documento.
  • C) Dale o documento.
  • D) Dá lhe o documento.

Resposta:

B.

Exemplo 2 — pronome

Na construção:

“Dá-lhe o livro.”

a forma lhe é:

  • A) artigo definido;
  • B) preposição;
  • C) pronome pessoal átono;
  • D) substantivo.

Resposta:

C.

Exemplo 3 — colocação pronominal

Em:

Dá-lhe o livro.

a colocação do pronome depois do verbo recebe o nome de:

  • A) próclise;
  • B) ênclise;
  • C) mesóclise nominal;
  • D) derivação.

Resposta:

B.

Exemplo 4 — hífen

Por que existe hífen em dá-lhe?

  • A) Porque toda palavra iniciada por D recebe hífen.
  • B) Porque o pronome átono está enclítico ao verbo.
  • C) Porque lhe é um prefixo.
  • D) Porque dá-lhe é uma palavra composta por dois substantivos.

Resposta:

B.

Exemplo 5 — português e espanhol

Qual afirmação é mais precisa?

  • A) Dale não existe em nenhuma língua.
  • B) Dá-lhe é português; dale também ocorre em espanhol.
  • C) Dale é a única grafia aceita em português.
  • D) Dalhe e dá-lhe são variantes ortográficas equivalentes.

Resposta:

B.

Exemplo 6 — valor interjetivo

Na frase:

“Dá-lhe, Brasil!”

a expressão apresenta principalmente valor de:

  • A) posse;
  • B) incentivo;
  • C) localização espacial;
  • D) comparação.

Resposta:

B.

Exemplo 7 — etimologia

O verbo português dar tem origem:

  • A) no grego égklisis;
  • B) no latim dare;
  • C) no francês donner;
  • D) exclusivamente no espanhol.

Resposta:

B.

Exemplo 8 — dá ou dê

Considerando a norma tradicional do imperativo, complete:

“_____ a ele o documento.” — ordem dirigida a você.

  • A) Dá-lhe;
  • B) Dê-lhe;
  • C) Dalhe;
  • D) Dale.

Resposta:

B.

Como não se confundir entre dá-lhe, dalhe e dale?

Padrão 1 — se existe “lhe”, preserve o LH

Pense:

LHE

DÁ-LHE.

O pronome não é:

le

em português.

É:

lhe.

Padrão 2 — pronome depois do verbo pede hífen

Memorize:

DÁ + LHE

DÁ-LHE

Compare:

DIGA-ME
AJUDE-ME
ENTREGUE-LHE
DÁ-LHE.

Padrão 3 — “dá” conserva o acento

Temos:

DÁ.

Ao acrescentar lhe:

DÁ-LHE.

Não retire:

nem o acento nem o hífen.

Padrão 4 — “da” sem acento é outra estrutura

Compare:

ELE DÁ O LIVRO.

com:

O LIVRO DA PROFESSORA.

Assim:

DÁ → VERBO

DA → DE + A.

Padrão 5 — português tem hífen; espanhol não

Guarde:

PORTUGUÊS
DÁ-LHE

ESPANHOL
DALE.

Essa comparação resolve boa parte da confusão visual.

Padrão 6 — “dalhe” mistura fala e escrita

Quando alguém escreve:

DALHE,

provavelmente está reproduzindo graficamente a maneira como percebeu a expressão na oralidade.

Volte à estrutura:

DÁ + LHE.

A estrutura mostra imediatamente:

DÁ-LHE.

Padrão 7 — identifique o pronome

Se você consegue substituir:

lhe

por algo como:

a ele / a ela,

fica mais fácil perceber que temos duas unidades gramaticais:


+
LHE.

Padrão 8 — não confunda a escrita com a pronúncia

A fala pode reduzir, modificar ou aproximar sons.

A escrita padrão preserva:

informações morfológicas.

Em:

DÁ-LHE,

conseguimos visualizar:

VERBO + PRONOME.

Em:

dale,

essa estrutura deixa de corresponder à ortografia portuguesa.

Um esquema rápido para memorizar

No português:

DÁ-LHE ✓

Estrutura:

DÁ + LHE

Classe de :

VERBO

Classe de lhe:

PRONOME PESSOAL OBLÍQUO ÁTONO

Posição:

VERBO + PRONOME

ÊNCLISE

Consequência ortográfica:

USO DO HÍFEN.

Origem:

DAR ← LATIM DARE

LHE ← LATIM ILLI

Termo gramatical:

ÊNCLISE ← GREGO ÉGKLISIS

E para não misturar as línguas:

PORTUGUÊS → DÁ-LHE

ESPANHOL → DALE.

A expressão mostra muito bem por que estudar ortografia apenas pelo som pode ser enganoso. Dá-lhe conserva na escrita informações sobre a forma verbal, o pronome, a colocação pronominal e a estrutura morfológica da expressão. Ao mesmo tempo, seu uso como grito de incentivo mostra que a língua não é apenas uma coleção de regras: as construções também adquirem novos valores conforme passam a circular em diferentes situações comunicativas.

Referências

  1. BRASIL. Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008 — Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A Base XVII determina o emprego do hífen na ênclise e apresenta exemplos como dá-se, deixa-o e partir-lhe. Disponível em: Acessar o Acordo Ortográfico no Planalto .
  2. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa — Anexos I e II. Documento oficial que apresenta, na Base XVII, a regra do hífen em construções enclíticas e mesoclíticas. Disponível em: Consultar o Acordo Ortográfico na ABL .
  3. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. “Me diga isto” ou “diga-me isto”? Artigo de Evanildo Bechara sobre a colocação dos pronomes átonos e sobre diferenças entre o uso coloquial brasileiro e as orientações da tradição normativa. Disponível em: Acessar o artigo da Academia Brasileira de Letras .
  4. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Dar. Registra os diversos sentidos do verbo dar e sua origem no latim dare. Disponível em: Consultar “dar” na Infopédia .
  5. MICHAELIS — DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Dar. Registra os diferentes usos do verbo e indica sua origem no latim dare. Disponível em: Consultar “dar” no Michaelis .
  6. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Lhe. Registra lhe como pronome pessoal de terceira pessoa em função de complemento e apresenta sua origem no latim illi, dativo de ille. Disponível em: Consultar “lhe” na Infopédia .
  7. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Ênclise. Define a ênclise como a posição pós-verbal dos pronomes clíticos em português e explica sua ligação gráfica ao verbo por hífen. Registra também a origem do termo no grego égklisis. Disponível em: Consultar “ênclise” na Infopédia .
  8. CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Ênclise. Explica que, quando o pronome pessoal átono é acrescentado depois do verbo, sua ligação gráfica é feita por meio do hífen. Disponível em: Acessar o Ciberdúvidas .
  9. CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. “E ele a dar-lhe!” Registra a expressão e ele a dar-lhe com sentido relacionado à insistência ou teimosia, demonstrando a expansão idiomática da construção. Disponível em: Consultar a expressão no Ciberdúvidas .
  10. DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Que. Registra a construção dá-lhe que dá-lhe como exemplo de emprego enfático e repetitivo da conjunção que. Disponível em: Consultar a fonte no Priberam .
  11. REAL ACADEMIA ESPAÑOLA; ASOCIACIÓN DE ACADEMIAS DE LA LENGUA ESPAÑOLA. Dar. O Diccionario de la lengua española registra dale como interjeição coloquial do espanhol e também as construções dale que dale e dale que te pego. A fonte permite distinguir a forma espanhola dale da portuguesa dá-lhe. Disponível em: Consultar “dar” no Dicionário da Real Academia Española .
  12. NICOLETI, Thaís. Grafias surpreendentes revelam escrita baseada na oralidade. Folha de S.Paulo, 18 abr. 2022. O artigo discute especificamente a ocorrência de dale no lugar de dá-lhe em textos portugueses e relaciona essa grafia à influência da oralidade. Disponível em: Acessar o artigo .
  13. ESCREVER CERTO. Dá-lhe, dalhe ou dale. Material introdutório sobre a estrutura formada pelo verbo dar e pelo pronome lhe, bem como sobre o emprego da expressão como fórmula de incentivo. Disponível em: Acessar “Dá-lhe, dalhe ou dale” .
  14. DA AULA. Entre Eu e Você ou Entre Mim e Você: Como Usar? Conteúdo complementar sobre pronomes pessoais do caso reto e formas oblíquas, útil para compreender a diferença entre formas empregadas como sujeito e como complemento. Disponível em: Acessar o artigo no Da Aula .
  15. DA AULA. Para Mim Fazer ou Para Eu Fazer? Entenda o Uso Correto. Conteúdo complementar sobre os pronomes pessoais e a distinção entre formas retas e oblíquas, permitindo aprofundar a classificação de lhe como pronome oblíquo. Disponível em: Acessar o artigo no Da Aula .
  16. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Obra de referência para pronomes pessoais, colocação pronominal, ênclise, imperativo e estrutura sintática da língua portuguesa.
  17. CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. Obra de referência para morfologia verbal, pronomes pessoais átonos, colocação pronominal e imperativo.

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