Abrido ou Aberto: Qual é a Forma Correta?

A forma correta é aberto. Quando precisamos do particípio passado do verbo abrir, empregamos construções como o documento foi aberto, eu havia aberto a janela e eles têm aberto novas vagas. Apesar de abrido parecer uma formação possível por comparação com particípios regulares como partido e dividido, essa não é a forma empregada na norma-padrão da língua portuguesa. O caso é particularmente interessante porque permite compreender a diferença entre particípios regulares e irregulares e mostra por que nem sempre podemos formar uma palavra apenas aplicando mecanicamente uma terminação gramatical.

Abrido ou aberto: qual é a forma correta?

Na pergunta apresentada nas redes sociais, temos duas possibilidades:

  • A) Abrido 👍
  • B) Aberto 😆

A resposta correta é B) Aberto.

Na norma-padrão contemporânea, utilizamos aberto como particípio passado do verbo abrir.

Veja:

  • A porta foi aberta.
  • O estabelecimento já havia aberto.
  • O envelope foi aberto pelo destinatário.
  • Eles têm aberto novas vagas todos os meses.

Não devemos substituir essas formas por abrido.

Por que “abrido” parece uma palavra possível?

A dúvida não surge por acaso. O verbo abrir termina em -ir e, portanto, pertence à terceira conjugação.

Muitos verbos dessa conjugação possuem particípios regulares terminados em -ido.

Compare:

Verbo Particípio
partir partido
dividir dividido
decidir decidido
permitir permitido
assistir assistido

Se alguém aplicar esse padrão mecanicamente, poderá imaginar:

abrir → abrido

A língua, porém, não funciona dessa maneira em todos os casos.

O particípio de abrir é uma forma irregular:

abrir → aberto.

O que é um particípio?

O particípio é uma das formas nominais do verbo, ao lado do infinitivo e do gerúndio.

Observe o verbo abrir:

  • infinitivo: abrir;
  • gerúndio: abrindo;
  • particípio: aberto.

O particípio aparece frequentemente em construções com verbos auxiliares.

Por exemplo:

Ela havia aberto a janela.

Nesse caso, aberto participa da construção verbal formada com haver.

Também encontramos:

O portão foi aberto pelo funcionário.

Aqui, o particípio aparece em uma construção de voz passiva.

O particípio de “abrir” é irregular

Os particípios regulares apresentam, de maneira geral, terminações previsíveis como -ado e -ido.

Veja:

  • falar → falado;
  • estudar → estudado;
  • vender → vendido;
  • partir → partido;
  • dividir → dividido.

Entretanto, alguns verbos possuem particípios que não seguem esse padrão.

Verbo Particípio
abrir aberto
cobrir coberto
dizer dito
escrever escrito
fazer feito
pôr posto
ver visto

Essas formas precisam ser reconhecidas dentro do sistema da língua.

Não dizemos:

  • abrido;
  • cobrido, no sentido do particípio padrão de cobrir;
  • dizido;
  • escrevido;
  • fazido.

Usamos:

aberto, coberto, dito, escrito e feito.

Um verbo pode ser regular e ter particípio irregular?

Sim, e esse é um detalhe importante no caso de abrir.

Dizer que um verbo possui um particípio irregular não significa necessariamente que toda a sua conjugação seja irregular.

O verbo abrir apresenta um paradigma bastante previsível em diferentes tempos:

  • eu abro;
  • tu abres;
  • ele abre;
  • nós abrimos;
  • eles abrem.

No passado:

  • eu abri;
  • tu abriste;
  • ele abriu;
  • nós abrimos;
  • eles abriram.

A particularidade aparece no particípio:

aberto.

Por isso, é mais preciso dizer que abrir possui particípio irregular do que concluir que todas as suas formas são imprevisíveis.

O correto é “tinha aberto” ou “tinha abrido”?

O correto é:

tinha aberto.

Exemplo:

Quando cheguei, ele já tinha aberto a porta.

Também escrevemos:

  • eu tinha aberto;
  • ela havia aberto;
  • nós temos aberto;
  • eles haviam aberto.

Portanto, são inadequadas na norma-padrão construções como:

  • tinha abrido;
  • havia abrido;
  • tem abrido.

Essa informação é especialmente importante porque existe uma regra escolar bastante conhecida segundo a qual determinados particípios regulares seriam utilizados com ter e haver.

Essa regra não pode ser aplicada ao verbo abrir, porque ele não possui, na norma contemporânea, um par de particípios abrido/aberto.

Não crie uma forma regular apenas porque aparece o auxiliar ter ou haver. Primeiro é preciso saber se o verbo realmente possui dois particípios reconhecidos.

Por que existe tanta confusão com os particípios duplos?

Alguns verbos efetivamente apresentam mais de uma forma de particípio reconhecida.

É por isso que muitos estudantes aprendem desde cedo que existem particípios chamados regulares e irregulares.

O problema aparece quando essa informação é transformada na ideia de que qualquer verbo com particípio irregular também deveria possuir automaticamente uma segunda forma regular.

Isso não é verdade.

O verbo abrir é um excelente exemplo:

abrir → aberto.

Não precisamos inventar abrido para completar um suposto par.

“Aberto” também pode ser adjetivo

A palavra aberto não aparece apenas dentro de construções verbais.

Ela também pode funcionar como adjetivo.

Compare:

O funcionário abriu o portão.

Aqui temos o verbo abrir conjugado.

Agora:

O portão está aberto.

A palavra aberto caracteriza o estado do portão.

Também podemos dizer:

  • A janela está aberta.
  • Os portões estão abertos.
  • As lojas estão abertas.

Nesse tipo de emprego, a palavra varia em gênero e número de acordo com o elemento a que se refere.

Aberto, aberta, abertos e abertas

Observe as quatro possibilidades:

Forma Exemplo
aberto O portão está aberto.
aberta A janela está aberta.
abertos Os portões estão abertos.
abertas As janelas estão abertas.

Essa flexão é especialmente visível quando aberto funciona como adjetivo ou participa de construções em que há concordância com o substantivo.

“Aberto” possui vários significados

Além de indicar algo que deixou de estar fechado, aberto desenvolveu diferentes sentidos no português.

Podemos dizer:

A loja está aberta.

Nesse caso, o estabelecimento está funcionando ou disponível ao público.

Também:

Ele é uma pessoa aberta ao diálogo.

Aqui, aberta relaciona-se à disposição para ouvir, aceitar ou considerar ideias.

Em:

A questão continua em aberto.

a expressão indica que algo ainda não está definitivamente resolvido.

Já em:

Eles caminharam em campo aberto.

a palavra está relacionada a um espaço amplo ou sem cobertura.

Esses usos demonstram como uma palavra pode ampliar semanticamente seus sentidos ao longo da história da língua.

Qual é a origem de “aberto”?

A forma aberto está historicamente relacionada ao latim apertus, enquanto o verbo português abrir remonta ao latim aperire.

Essa informação ajuda a explicar uma característica que pode parecer estranha ao estudante:

abrir → aberto

A diferença entre as duas formas não surgiu porque algum falante decidiu substituir arbitrariamente -ido por -erto.

Ela é resultado da história dessas palavras e das transformações ocorridas entre o latim e o português.

Esse é um excelente exemplo de como a etimologia pode ajudar a compreender determinadas irregularidades da língua.

O verbo “reabrir” segue o mesmo padrão

Uma ótima maneira de ampliar o conhecimento é observar palavras derivadas.

Se temos:

abrir → aberto

temos também:

reabrir → reaberto.

Exemplos:

  • O processo foi reaberto.
  • A loja será reaberta na segunda-feira.
  • Os espaços foram reabertos ao público.

Esse tipo de associação é muito eficiente para a memória.

Se o verbo derivado conserva a estrutura de abrir, seu particípio também pode conservar a base aberto.

“Abrido” nunca existiu?

Aqui é importante fazer uma distinção entre uso contemporâneo e história da língua.

Há registros e discussões entre estudiosos sobre ocorrências antigas da forma abrido. Isso, entretanto, não significa que ela deva ser usada normalmente no português-padrão atual.

Para quem está escrevendo uma redação, um trabalho acadêmico, uma prova, um documento profissional ou qualquer texto que siga a norma contemporânea, a orientação é clara:

use aberto.

Quando estudamos história da língua, uma forma antiga pode ser linguisticamente interessante mesmo que não pertença ao padrão contemporâneo. Portanto, dizer que uma forma não deve ser usada hoje não equivale necessariamente a afirmar que jamais houve nenhuma ocorrência histórica dela.

Como esse assunto pode aparecer em vestibulares e provas?

A dúvida pode aparecer diretamente, mas também pode ser explorada em questões sobre formas nominais do verbo, particípios e concordância.

Exemplo 1 — forma correta

Complete:

“Quando chegamos, o funcionário já havia ______ o portão.”

  • A) abrido
  • B) aberto

Resposta: B) aberto.

Exemplo 2 — particípio

Qual é o particípio passado do verbo abrir?

  • A) abrido;
  • B) aberto;
  • C) abrindo;
  • D) abriu.

Resposta: B) aberto.

Exemplo 3 — formas nominais

Qual sequência apresenta, respectivamente, infinitivo, gerúndio e particípio?

  • A) abrir – abrindo – aberto;
  • B) abrir – abriu – abrido;
  • C) aberto – abrindo – abrir;
  • D) abriu – abrindo – aberto.

Resposta: A.

Exemplo 4 — concordância

Complete:

“As duas janelas permaneceram ______ durante a noite.”

  • A) aberto;
  • B) aberta;
  • C) abertos;
  • D) abertas.

Resposta: D) abertas.

Exemplo 5 — reconhecimento do padrão

Qual alternativa apresenta apenas particípios irregulares?

  • A) aberto, escrito, feito;
  • B) partido, vendido, falado;
  • C) estudado, aberto, vendido;
  • D) dividido, feito, comprado.

Resposta: A.

Como encontrar padrões e não se confundir mais?

O primeiro passo é separar dois grupos.

No grupo dos particípios regulares, observe:

  • falar → falado;
  • estudar → estudado;
  • vender → vendido;
  • dividir → dividido;
  • partir → partido.

Agora forme um pequeno grupo de particípios irregulares:

  • abrir → aberto;
  • cobrir → coberto;
  • escrever → escrito;
  • fazer → feito;
  • dizer → dito;
  • ver → visto;
  • pôr → posto.

A ideia não é decorar uma lista gigantesca. É começar a reconhecer que certos verbos muito frequentes possuem formas tradicionais que precisam ser aprendidas como parte de seu paradigma.

Não confunda “abriu” com “aberto”

As duas palavras vêm do verbo abrir, mas exercem funções diferentes.

Compare:

Ela abriu a janela.

Abriu é uma forma conjugada do pretérito perfeito do indicativo.

Agora:

Ela havia aberto a janela.

Aberto é o particípio.

E:

A janela estava aberta.

Nesse contexto, aberta caracteriza o estado da janela.

Portanto:

  • abriu → forma verbal conjugada;
  • aberto → particípio;
  • aberta → pode funcionar como adjetivo, conforme a construção.

Exemplos para não errar mais

Eu tinha aberto a porta.
Correto.

Eu tinha abrido a porta.
Inadequado na norma-padrão contemporânea.

O pacote foi aberto ontem.
Correto.

O pacote foi abrido ontem.
Inadequado.

A janela estava aberta.
Correto.

As janelas estavam abertas.
Correto.

O processo será reaberto.
Correto.

Ele abriu a correspondência.
Correto. Aqui temos o pretérito perfeito do verbo.

Ele havia aberto a correspondência.
Correto. Aqui temos uma construção com particípio.

Um macete para memorizar

Em vez de tentar lembrar apenas que “abrido está errado”, memorize uma pequena família de formas:

ABRIR → ABERTO
REABRIR → REABERTO

Depois associe aberto

ABRIR → ABERTO
ESCREVER → ESCRITO
FAZER → FEITO
DIZER → DITO
VER → VISTO

Outra estratégia é testar uma frase que usamos com frequência:

A porta está aberta.

A forma é tão comum como adjetivo que pode funcionar como uma boa âncora de memória. Se a porta está aberta, então alguém a havia aberto.

Por fim, não aplique automaticamente a fórmula:

verbo em -ir → particípio em -ido.

Ela funciona para muitos verbos:

partir → partido

mas não para todos:

abrir → aberto.

Esse é um princípio importante para o estudo da língua: padrões ajudam a aprender, mas precisam ser confrontados com as irregularidades reais do sistema.

Referências

  1. ESCREVER CERTO. Abrido ou aberto. Material utilizado como ponto de partida para a questão. Apresenta aberto como particípio passado do verbo abrir e discute a inadequação de abrido no português-padrão contemporâneo. Disponível em: Escrever Certo .
  2. DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Conjugação de abrir. Registra aberto como particípio passado do verbo abrir. Disponível em: Priberam .
  3. DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Abrir. Registra o verbo como de conjugação regular e particípio irregular, além de apresentar seus diferentes sentidos e sua origem no latim aperio, -ire. Disponível em: Priberam .
  4. DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Aberto. Registra os sentidos adjetivais da palavra e sua origem no latim apertus, -a, -um. Disponível em: Priberam .
  5. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Conjugação do verbo abrir. Apresenta aberto como particípio passado e registra construções como tenho aberto, tinha aberto e terei aberto. Disponível em: Infopédia .
  6. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Aberto. Registra a palavra como particípio passado de abrir e também como adjetivo com diferentes acepções. Disponível em: Infopédia .
  7. PORTAL DA LÍNGUA PORTUGUESA. Abrir. Apresenta o paradigma verbal e registra aberto, aberta, abertos, abertas como formas do particípio passado. Disponível em: Portal da Língua Portuguesa .
  8. CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. O particípio passado do verbo abrir. Discussão específica sobre aberto e abrido, incluindo a controvérsia sobre registros e interpretações históricas da forma regular. Disponível em: Ciberdúvidas .
  9. CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Ainda os particípios regulares ganhado, pagado e gastado. Material sobre particípios regulares e irregulares, incluindo abrir → aberto entre os verbos que apresentam apenas o particípio irregular no uso padrão. Disponível em: Ciberdúvidas .
  10. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Obra de referência para o estudo das formas nominais dos verbos, particípios e flexão verbal.
  11. CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. Obra de referência para a morfologia e o sistema verbal da língua portuguesa.

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