Há dúvidas ortográficas que parecem colocar duas grafias em competição, quando, na realidade, cada uma pertence a uma palavra diferente. Serei e cerei formam justamente um desses casos. Na fala de muitos brasileiros, as duas formas podem soar praticamente iguais, mas a semelhança termina aí. Serei pertence ao verbo ser e projeta uma situação para o futuro; cerei, embora muito menos comum, também existe nos dicionários e pertence ao verbo cerar, empregado historicamente com o sentido de fechar ou lacrar com cera. A diferença entre S e C, portanto, não é apenas ortográfica: envolve dois verbos, dois significados e até dois tempos verbais diferentes.
Serei pertence ao verbo ser e expressa futuridade
A forma serei é a primeira pessoa do singular do futuro do presente do indicativo do verbo ser. Quando alguém escreve eu serei professor, amanhã serei responsável pela apresentação ou um dia serei capaz de fazer isso sozinho, apresenta uma condição, identidade, característica ou situação projetada para um momento posterior ao da fala.
O Portal da Língua Portuguesa, o Dicionário Priberam e a Infopédia registram o paradigma do futuro do indicativo do verbo ser: serei, serás, será, seremos, sereis, serão. Isso permite perceber que o S de serei não apareceu por acaso. Ele permanece ligado ao próprio infinitivo:
SER → SEREI
Do ponto de vista da classe de palavras, estamos diante de um verbo. Mais precisamente, serei é uma forma flexionada de ser. O verbo ser pode funcionar como verbo copulativo, ligando um sujeito a uma característica ou identificação, como em eu serei médico, e também participa de outras construções importantes da língua, inclusive da formação da voz passiva: o resultado será divulgado amanhã.
Há ainda uma característica gramatical que torna ser especialmente interessante: ele é um verbo fortemente irregular. Basta observar algumas de suas formas para perceber que não estamos diante de um paradigma muito comportado: sou, és, é, fui, era, seja, fosse, serei. Se os verbos fossem alunos, ser certamente seria aquele que pede para não ser comparado com o restante da turma.
A história do verbo ser é mais complexa do que sua forma atual sugere
A etimologia de ser é particularmente rica porque seu paradigma resulta historicamente da convergência de mais de um verbo latino. Fontes linguísticas como o Ciberdúvidas explicam que, na história do português, formas provenientes do latim sedēre, originalmente relacionado a “estar sentado” ou “permanecer”, acabaram convergindo com formas de esse, o verbo latino de valor existencial e copulativo, correspondente a “ser”.
Isso ajuda a explicar a aparência tão irregular do paradigma moderno. Formas como sou, é, era e fui não se deixam explicar simplesmente por um único radical português. Em linguística histórica, esse tipo de paradigma constituído por formas de origens diferentes é frequentemente associado ao fenômeno da suplência. O verbo funciona hoje como uma unidade gramatical, mas carrega em seu interior pedaços de histórias diferentes.
O futuro serei apresenta ainda outra curiosidade histórica. O futuro sintético das línguas românicas não é mera continuação do futuro latino clássico. Ele se desenvolveu a partir de construções formadas pelo infinitivo do verbo principal acompanhado de formas do verbo latino habēre, “ter”. Ao longo do tempo, essa construção se gramaticalizou, e antigas formas de habēre deram origem às terminações modernas do futuro, como -ei, -ás, -á, -emos, -eis e -ão.
Por isso, historicamente, a terminação de serei faz parte do mesmo processo que encontramos em cantarei, viverei, estudarei e partirei. É uma pequena peça de história do latim escondida dentro de uma palavra absolutamente cotidiana.
Cerei também existe, mas pertence a outro verbo
A existência de cerei merece atenção justamente para evitar uma explicação incompleta. Não é rigoroso afirmar que cerei “não existe”. A Infopédia e outros dicionários registram essa forma como a primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo cerar.
O verbo cerar é hoje pouco usado e aparece marcado em algumas fontes como antigo. Seu sentido é fechar ou lacrar uma carta ou outro escrito com cera. A Infopédia relaciona o verbo ao latim cerāre, enquanto o Priberam registra origem no latim cero, -are, com a ideia de cobrir com cera.
Assim, uma frase historicamente possível seria:
Ontem, cerei a carta antes de enviá-la.
Nesse contexto, cerei significa algo próximo de lacrei com cera. É um emprego legítimo, embora bastante pouco frequente no português brasileiro contemporâneo. Hoje, provavelmente diríamos lacrei a carta ou, dependendo do contexto, selei a carta. Aliás, isso cria uma boa ponte com o artigo Selar ou Celar: Qual a Forma Correta?, já publicado no Da Aula, porque ali também aparece o campo semântico de selo, lacre e fechamento.
O detalhe mais interessante é que cerei não está no futuro. Ele está no passado. Compare:
EU SEREI → futuro do verbo SER
EU CEREI → passado do verbo CERAR
É uma diferença enorme escondida atrás de duas palavras quase idênticas na pronúncia. Uma olha para frente no tempo; a outra, quando realmente empregada, relata uma ação já concluída.
Por que serei e cerei podem soar iguais?
No português, a letra c diante das vogais e e i pode representar o fonema /s/. É o que ocorre em palavras como cedo, cereal, cidade e cinto. A letra s em posição inicial também pode representar esse mesmo fonema, como em seda, segredo e semana.
Consequentemente, serei e cerei podem tornar-se homófonas em muitas variedades do português: formas com a mesma realização sonora, mas grafias e significados diferentes. Esse é precisamente o tipo de situação em que a velha recomendação “escreva como você fala” falha. A fala nos dá o som, mas não necessariamente a história lexical da palavra.
O Da Aula já trabalha esse mesmo problema em Seta ou Ceta: Qual a Forma Correta?. Nesse caso, o som inicial também poderia, em princípio, ser representado por S ou C, mas a palavra que designa uma flecha ou um indicador de direção é seta. O princípio didático é o mesmo: a pronúncia não basta para determinar a grafia.
Há, entretanto, uma diferença importante entre os dois casos. Em seta/ceta, a forma ceta não funciona como grafia padrão da palavra que significa flecha. Já no par serei/cerei, as duas formas têm existência lexical, mas pertencem a verbos diferentes. É justamente por isso que o contexto precisa entrar na análise.
O contexto resolve a escolha com bastante segurança
Se a intenção é falar sobre aquilo que alguém vai ser, a relação morfológica é direta:
ser → serei.
Por isso escrevemos:
Amanhã serei mais cuidadoso.
Um dia serei professor.
Serei responsável pelo projeto.
Não sei como serei recebido.
Escrever cerei nessas frases é um erro ortográfico porque a palavra pretendida pertence ao verbo ser. A existência do outro verbo não transforma C e S em variantes intercambiáveis. É exatamente o mesmo raciocínio que usamos com tantos homófonos: uma forma pode existir e, ainda assim, estar errada em determinado contexto.
Por outro lado, se alguém estiver empregando conscientemente o antigo verbo cerar com o sentido de lacrar algo com cera, cerei pode ser perfeitamente analisado como forma verbal correta:
Eu cerei o documento.
Nesse caso, temos:
cerar → cerei.
Observe ainda uma diferença morfológica curiosa. Em serei, a terminação -ei pertence ao futuro do presente. Em cerei, a mesma sequência gráfica -ei aparece na primeira pessoa do pretérito perfeito de um verbo regular terminado em -ar, como ocorre em cantei, falei e estudei. Ou seja, nem mesmo o final idêntico significa que as duas palavras tenham a mesma estrutura gramatical.
Uma maneira prática de não se confundir é recuperar o infinitivo. Se a ideia é SER, escreva SEREI. Se a palavra for realmente uma forma do raro verbo CERAR, então CEREI pode aparecer — mas com sentido de uma ação de lacrar com cera realizada no passado.
Na verificação realizada no Da Aula, não apareceu um artigo específico dedicado a Serei ou Cerei, de modo que este conteúdo pode inaugurar o tema no site. Entretanto, há uma ligação muito útil com Selar ou Celar: Qual a Forma Correta?, porque o verbo cerar se aproxima historicamente do campo semântico de lacrar e fechar com cera. Também é pertinente relacionar o tema a Seta ou Ceta: Qual a Forma Correta?, que ajuda a compreender por que o mesmo som inicial pode ser representado por C ou S sem que essas letras sejam livremente substituíveis.
Para quem quer aprofundar conjugação verbal, formação dos tempos, etimologia e história do português, uma obra bastante útil para consulta é a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. É um livro de referência que vai muito além de decorar “certo ou errado” e ajuda a entender os mecanismos por trás da língua. Se fizer sentido para seus estudos, você pode consultar as edições disponíveis na Amazon. O link é de afiliado e pode gerar comissão para o Da Aula sem custo adicional para o comprador.
Referências
- PORTAL DA LÍNGUA PORTUGUESA. Ser — verbo. Apresenta a conjugação completa do verbo ser, incluindo serei, serás, será, seremos, sereis, serão no futuro do indicativo. Disponível em: Consultar o verbo “ser”.
- DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Serei. Registra serei como primeira pessoa do singular do futuro do indicativo do verbo ser. Disponível em: Consultar “serei”.
- INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Serei. Apresenta a forma no futuro do indicativo do verbo ser e o respectivo paradigma verbal. Disponível em: Consultar “serei”.
- CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Os verbos ser e estar. Discute a história etimológica do verbo ser e a convergência histórica de formas provenientes dos verbos latinos sedere e esse. Disponível em: Acessar o texto.
- CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Havemos, haveis e as terminações do futuro do indicativo. Explica a origem histórica das terminações do futuro português a partir de formas do latim habere. Disponível em: Acessar o texto.
- INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Cerei. Registra cerei como primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo cerar. Disponível em: Consultar “cerei”.
- INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Cerar. Registra o verbo com os sentidos de fechar com cera e lacrar e indica sua origem no latim cerāre. Disponível em: Consultar “cerar”.
- DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Cerar. Registra o uso antigo de cerar no sentido de fechar carta ou escrito com cera e relaciona o verbo ao latim cero, -are. Disponível em: Consultar “cerar”.
- DA AULA. Selar ou Celar: Qual a Forma Correta? Conteúdo relacionado aos verbos selar e celar, ao campo semântico de lacre e fechamento e às diferenças produzidas por C e S. Disponível em: Acessar o artigo.
- DA AULA. Seta ou Ceta: Qual a Forma Correta? Conteúdo complementar sobre a representação do fonema /s/ pelas letras S e C e sobre os limites de escrever apenas com base na pronúncia. Disponível em: Acessar o artigo.
- BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Obra de referência para morfologia, conjugação verbal, formação dos tempos e história gramatical da língua portuguesa.

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