“Menas pessoas” ou “Menos pessoas”: Qual é o Correto?

A forma adequada à norma-padrão é menos pessoas. A palavra menos permanece invariável: dizemos menos alunos, menos alunas, menos dinheiro, menos água, menos problemas e menos oportunidades. A forma menas, embora possa ser encontrada na fala informal de alguns usuários da língua, não funciona na norma-padrão como feminino de menos. A dúvida é especialmente interessante porque outras palavras que indicam quantidade, como muito, pouco e tanto, podem variar em gênero e número. É justamente essa semelhança que ajuda a explicar por que alguém pode produzir intuitivamente menas pessoas. Compreender o fenômeno permite estudar não apenas uma regra isolada, mas também invariabilidade, concordância nominal, analogia linguística e variação entre diferentes usos da língua.

“Menas pessoas” ou “menos pessoas”: qual é o correto?

Na pergunta apresentada na imagem, temos:

  • A) “Menas” pessoas
  • B) “Menos” pessoas
  • C) Os dois estão certos
  • D) Depende da região

A resposta correta segundo a norma-padrão é B) “Menos” pessoas.

Escrevemos:

  • Havia menos pessoas na reunião.
  • Precisamos de menos água.
  • Hoje ocorreram menos reclamações.
  • Foram oferecidas menos vagas.
  • Ele encontrou menos dificuldades.

Observe que todos esses substantivos são femininos, mas menos permanece exatamente igual.

Por que não existe concordância em “menos pessoas”?

Quando estudamos concordância nominal, aprendemos que várias palavras podem adaptar sua forma ao gênero ou ao número do substantivo.

Por exemplo:

  • muito dinheiro → muita água;
  • pouco tempo → pouca paciência;
  • tanto esforço → tanta dedicação;
  • muitos alunos → muitas alunas.

Por analogia, seria fácil imaginar:

menos alunos → menas alunas.

Entretanto, esse padrão não se aplica a menos.

A palavra não possui uma forma feminina correspondente em construções desse tipo.

Assim:

menos alunos
menos alunas

e não:

menas alunas.

“Menos” é uma palavra invariável

Do ponto de vista morfológico, uma palavra é chamada de invariável quando não apresenta determinadas flexões que encontramos em outras classes ou palavras.

No uso que estamos estudando, menos não recebe uma terminação feminina.

Compare:

Substantivo Forma correta
homens menos homens
mulheres menos mulheres
dinheiro menos dinheiro
água menos água
trabalho menos trabalho
tarefas menos tarefas

O gênero e o número da palavra seguinte não provocam uma mudança para mena ou menas.

Mas afinal, “menos” é advérbio?

Essa pergunta merece uma resposta um pouco mais cuidadosa do que geralmente encontramos em explicações escolares.

Em muitas gramáticas didáticas, menos é apresentado como advérbio quando expressa intensidade ou grau.

Por exemplo:

Ela está menos preocupada.

Nesse caso, menos modifica o adjetivo preocupada e indica uma intensidade inferior.

Temos também:

Ele trabalha menos.

Aqui, a palavra modifica o verbo trabalhar.

Entretanto, descrições linguísticas e dicionários contemporâneos também reconhecem outros valores gramaticais para menos.

E em “menos pessoas”?

Em:

menos pessoas

a palavra está diretamente relacionada à quantidade ou ao número de pessoas.

Dicionários atuais podem classificá-la nesse tipo de construção como quantificador ou pronome indefinido, além dos usos adverbiais encontrados em outros contextos.

Esse detalhe é importante porque mostra que uma palavra pode exercer funções diferentes conforme a estrutura da frase.

Porém, para resolver a dúvida prática, o resultado continua o mesmo:

MENOS permanece MENOS.

Em provas escolares, é possível encontrar materiais que simplesmente chamam menos de advérbio e destacam sua invariabilidade. Em descrições gramaticais mais detalhadas, a classificação pode variar conforme o contexto sintático. A regra de uso que interessa à nossa questão, entretanto, não muda.

O que significa “menos”?

De maneira geral, a palavra expressa uma ideia de quantidade, número, intensidade ou grau inferior.

Compare:

Há menos pessoas hoje.

Temos quantidade ou número inferior de pessoas.

Estou menos cansado.

Temos intensidade inferior de cansaço.

Ele estudou menos ontem.

Temos quantidade ou duração inferior da ação de estudar.

O significado geral de redução permanece, mas a função gramatical pode mudar conforme a construção.

“Menas” não é o feminino de “menos”

Esse é o ponto que deve ser memorizado.

Algumas palavras possuem claramente masculino e feminino:

  • muito → muita;
  • pouco → pouca;
  • tanto → tanta;
  • quanto → quanta.

Mas não temos:

menos → menas.

O contraste correto é:

Palavra Masculino Feminino
muito muito trabalho muita dedicação
pouco pouco tempo pouca água
tanto tanto esforço tanta paciência
menos menos trabalho menos dedicação

Por que alguém pode dizer “menas”?

Do ponto de vista do funcionamento da língua, a ocorrência não é completamente aleatória.

O falante já conhece centenas de situações em que palavras próximas de um substantivo feminino assumem uma forma feminina.

Ele aprende padrões como:

MUITOS alunos → MUITAS alunas
POUCOS alunos → POUCAS alunas
TANTOS alunos → TANTAS alunas

Diante desse conjunto, é possível construir por analogia:

MENOS alunos → MENAS alunas.

A forma não pertence ao padrão formal, mas o processo que pode favorecer sua produção é compreensível: o falante tenta tornar regular uma estrutura que, no sistema padrão, permanece invariável.

O que é analogia linguística?

A analogia ocorre quando um padrão existente na língua influencia a formação ou interpretação de outra estrutura.

Imagine que uma pessoa conhece:

  • muito → muita;
  • pouco → pouca;
  • tanto → tanta.

Ela pode inferir que outra palavra de quantidade deveria seguir o mesmo comportamento.

Essa inferência é intuitivamente compreensível, mas o sistema da língua nem sempre apresenta regularidade absoluta.

Por isso:

muita gente

mas:

menos gente.

“Menas” existe na fala?

É importante separar duas perguntas diferentes:

1. Algumas pessoas utilizam a forma?

Sim, ela pode ocorrer na comunicação espontânea.

2. É a forma recomendada pela norma-padrão para “menos” diante de substantivos femininos?

Não.

Essa distinção é importante no estudo científico da língua porque a Linguística pode descrever formas efetivamente produzidas pelos falantes sem necessariamente classificá-las como pertencentes ao padrão formal.

Norma-padrão e uso real da língua não são exatamente a mesma coisa

A língua apresenta diferentes registros e variedades.

A maneira como conversamos espontaneamente com amigos não é necessariamente idêntica à utilizada em:

  • uma redação de vestibular;
  • um artigo acadêmico;
  • um documento oficial;
  • uma comunicação profissional;
  • uma prova de gramática.

Quando a pergunta é:

“Qual forma está de acordo com a norma-padrão?”

a resposta é:

menos.

Isso significa que devemos ridicularizar quem diz “menas”?

Não.

Conhecer uma regra da norma-padrão não exige transformar diferenças linguísticas em motivo para desvalorizar um falante.

É possível fazer duas coisas simultaneamente:

  1. reconhecer que determinadas formas aparecem na fala real;
  2. ensinar qual delas é esperada em contextos formais e em avaliações escolares.

Assim, em vez de afirmar que alguém “não sabe falar português”, uma formulação mais precisa é:

A forma utilizada não corresponde à norma-padrão esperada nesse contexto.

A resposta depende da região?

Para a questão da imagem, não.

A alternativa:

D) Depende da região

não é a resposta correta quando estamos verificando a forma segundo a norma-padrão.

Pode haver diferenças de frequência e de uso entre grupos de falantes, situações comunicativas e variedades linguísticas, mas isso não cria uma regra formal em que uma região deva escrever menos e outra menas.

Em textos formais:

menos pessoas.

“Mais” ajuda a lembrar de “menos”

Uma das melhores associações para memorizar a regra é utilizar o par:

MAIS × MENOS.

Observe:

  • mais alunos;
  • mais alunas;
  • mais dinheiro;
  • mais oportunidades.

Não dizemos:

maisas alunas.

Da mesma maneira:

  • menos alunos;
  • menos alunas;
  • menos dinheiro;
  • menos oportunidades.

Essa oposição cria um padrão muito fácil de recuperar:

MAIS NÃO MUDA.
MENOS TAMBÉM NÃO.

“Menos pessoa” ou “menos pessoas”?

Aqui é preciso separar a invariabilidade de menos da flexão do substantivo.

A palavra menos não muda.

Mas pessoa continua obedecendo normalmente às regras de singular e plural.

Por exemplo:

Há uma pessoa a menos.

Mas:

Hoje há menos pessoas na sala.

Não é porque menos é invariável que todas as palavras próximas dele também precisam ser invariáveis.

Menos água ou menos águas?

A resposta depende agora do significado do substantivo, e não da palavra menos.

No uso comum:

Precisamos gastar menos água.

Água funciona como substantivo de massa e normalmente aparece no singular nesse sentido.

Em contextos diferentes, entretanto, o plural águas também existe:

As águas dos rios apresentam características diferentes.

O importante é perceber:

menos permanece igual nos dois casos.

Menos é o contrário de mais?

Em muitos contextos quantitativos ou comparativos, mais e menos estabelecem uma oposição.

Compare:

Vieram mais pessoas do que ontem.

Vieram menos pessoas do que ontem.

Uma expressão aumenta a quantidade considerada; a outra a diminui.

Essa relação semântica também é útil para memorizar a invariabilidade das duas formas.

A origem da palavra também ajuda

A palavra portuguesa menos tem origem no latim minus.

Essa informação etimológica ajuda a perceber que o O final de menos não deve ser interpretado como uma terminação masculina comum que precise ser substituída por A diante de um substantivo feminino.

Em outras palavras:

O final de menos não funciona como o O de:

  • bonito → bonita;
  • pouco → pouca;
  • muito → muita.

Por isso, tentar produzir um feminino apenas substituindo O por A leva à forma inadequada menas.

Nem todo O final indica masculino

Esse princípio é muito importante na língua portuguesa.

Não podemos olhar apenas para a última letra de uma palavra e concluir automaticamente que ela representa gênero masculino.

Em menos, o O faz parte da própria estrutura lexical da palavra.

Por isso:

menos meninas

continua perfeitamente correto, embora meninas seja feminino plural.

Compare “menos” com “pouco”

Essa comparação esclarece bastante a diferença.

Com MENOS Com POUCO
menos dinheiro pouco dinheiro
menos água pouca água
menos alunos poucos alunos
menos alunas poucas alunas

O comportamento é diferente:

POUCO varia.

MENOS não.

Compare também com “muito”

Temos:

  • muito trabalho;
  • muita atividade;
  • muitos estudantes;
  • muitas pessoas.

Mas:

  • menos trabalho;
  • menos atividade;
  • menos estudantes;
  • menos pessoas.

Portanto, não utilize muito/muita como modelo para flexionar menos.

Outras expressões com “menos”

A palavra aparece em diversas construções bastante frequentes:

  • pelo menos — no mínimo;
  • ao menos — pelo menos;
  • a menos — em quantidade inferior;
  • mais ou menos — aproximadamente;
  • nem mais nem menos — exatamente;
  • a menos que — salvo se, exceto se.

Observe novamente que a forma permanece:

menos.

“Há menos pessoas” ou “haviam menos pessoas”?

Essa comparação permite acrescentar outro conteúdo gramatical importante.

A forma correta é:

Havia menos pessoas na sala.

Quando o verbo haver significa existir, ele é impessoal e permanece na terceira pessoa do singular.

Assim, temos duas invariabilidades diferentes na mesma construção:

Havia menos pessoas.

Não:

Haviam menas pessoas.

Nesse segundo exemplo, existem dois problemas diferentes: a flexão indevida do verbo haver impessoal e a criação de menas como suposto feminino de menos.

Como essa questão pode aparecer em vestibulares e concursos?

Exemplo 1 — forma correta

Complete:

“Este ano houve ______ inscrições no processo seletivo.”

  • A) menas;
  • B) menos;
  • C) menazes;
  • D) menor.

Resposta: B) menos.

Exemplo 2 — substantivo feminino

Assinale a frase de acordo com a norma-padrão:

  • A) Precisamos de menas água.
  • B) Precisamos de menos água.
  • C) Precisamos de meno água.
  • D) Precisamos de menas águas obrigatoriamente.

Resposta: B.

Exemplo 3 — invariabilidade

Em qual alternativa a palavra menos foi empregada corretamente?

  • A) Havia menas dificuldades.
  • B) Vieram menas candidatas.
  • C) Tivemos menos oportunidades.
  • D) Foram feitas menas perguntas.

Resposta: C.

Exemplo 4 — comparação com “pouco”

Complete corretamente:

“Há ______ água no reservatório e ______ pessoas utilizando-a.”

  • A) pouca / menos;
  • B) pouco / menas;
  • C) pouca / menas;
  • D) menos / menas.

Resposta: A) pouca / menos.

Pouca concorda com água. Menos não se altera diante de pessoas.

Exemplo 5 — dois problemas na mesma frase

Assinale a forma adequada:

  • A) Haviam menas pessoas.
  • B) Havia menas pessoas.
  • C) Haviam menos pessoas.
  • D) Havia menos pessoas.

Resposta: D.

Como encontrar padrões e não se confundir mais?

O primeiro padrão é bastante simples:

MENOS + MASCULINO = MENOS
MENOS + FEMININO = MENOS

Exemplos:

menos dinheiro
menos água

Depois faça o mesmo com o plural:

menos homens
menos mulheres

A forma não muda.

Associe “menos” a “mais”

Este provavelmente é o macete mais eficiente:

MAIS pessoas
MENOS pessoas

Ninguém precisa criar um feminino de mais.

Faça a mesma associação com menos.

Assim:

MAIS não varia.
MENOS não varia.

Não use “muito” como modelo

Quando surgir a dúvida, não raciocine:

muito → muita, portanto menos → menas.

As palavras não apresentam o mesmo comportamento morfológico.

O padrão correto é:

MUITO → MUITA
POUCO → POUCA
TANTO → TANTA
MENOS → MENOS

Faça o teste do substantivo

Troque a palavra seguinte por substantivos de diferentes gêneros:

menos trabalho

Agora:

menos atividade.

Depois:

menos homens.

E:

menos mulheres.

Se a forma continua funcionando em todos esses contextos, fica mais fácil perceber sua invariabilidade.

Exemplos para não errar mais

Hoje havia menos pessoas na loja.
Correto.

Hoje havia menas pessoas na loja.
Inadequado na norma-padrão.

Precisamos gastar menos água.
Correto.

Precisamos gastar menas água.
Inadequado na norma-padrão.

Foram registradas menos ocorrências.
Correto.

Foram registradas menas ocorrências.
Inadequado na norma-padrão.

Tenho menos dúvidas agora.
Correto.

Há menos oportunidades disponíveis.
Correto.

Ela está menos preocupada.
Correto.

Ele está menos preocupado.
Correto.

Observe o último par: muda-se preocupado/preocupada, mas menos continua exatamente igual.

Um macete rápido

Guarde esta frase:

“COM MAIS OU COM MENOS, NÃO MUDA O COMEÇO NEM O FIM.”

Depois memorize:

mais alunos → mais alunas
menos alunos → menos alunas

E compare:

muitos alunos → muitas alunas
poucos alunos → poucas alunas

Assim, você cria dois grupos:

INVARIÁVEIS:
mais, menos.

VARIÁVEIS NESTES USOS:
muito/muita, pouco/pouca, tanto/tanta.

O mais importante é compreender que a palavra seguinte ser feminina não obriga todas as palavras anteriores a receber uma terminação feminina. A concordância depende da classe e do comportamento gramatical de cada elemento.

Referências

  1. DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA. Menos. Registra a palavra com valores como advérbio, quantificador/pronome indefinido, substantivo e preposição, além dos sentidos de quantidade, número, grau ou intensidade inferior. Disponível em: Priberam .
  2. INFOPÉDIA — PORTO EDITORA. Menos. Apresenta os diferentes valores gramaticais e significados da palavra e registra sua origem no latim minus. Disponível em: Infopédia .
  3. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Palavra foi excluída da Língua Portuguesa e as pessoas continuam usando. Material publicado na seção ABL na Mídia que menciona menas em lugar de menos entre formas que não pertencem ao padrão formal contemporâneo. Disponível em: Academia Brasileira de Letras .
  4. BRASIL ESCOLA. Há menas ou menos pessoas? Material dedicado especificamente à invariabilidade de menos e ao emprego de construções como menos pessoas. Disponível em: Brasil Escola .
  5. BRASIL ESCOLA. Advérbio: função, tipos, locução e exemplos. Apresenta a invariabilidade dos advérbios e utiliza menos para exemplificar a impossibilidade de flexão de gênero em usos adverbiais. Disponível em: Brasil Escola .
  6. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vamos a falar sério. Texto que recupera discussões da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, sobre a distinção entre formas variáveis e invariáveis e o comportamento de advérbios e adjetivos. Disponível em: Academia Brasileira de Letras .
  7. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Obra de referência para morfologia, classes de palavras, concordância e invariabilidade.
  8. CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. Obra de referência para concordância nominal, morfologia e funcionamento das classes gramaticais.

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