África: Quantos Países Tem, Regiões e Diversidade do Continente

Ontem, 4 de setembro de 2026, uma discussão aparentemente muito técnica sobre mapas chegou à Assembleia Geral das Nações Unidas. Por ampla maioria, os países aprovaram uma resolução que incentiva o uso de projeções cartográficas capazes de representar com maior fidelidade as proporções das massas terrestres. A iniciativa, apresentada pelo Togo com apoio da União Africana, chamou atenção especialmente para a maneira como a África aparece nos mapas escolares. Durante séculos, projeções como a de Mercator ampliaram visualmente regiões próximas aos polos e diminuíram, em termos relativos, grandes áreas próximas ao Equador. O resultado é curioso: muita gente termina a escola conhecendo o formato da África, mas sem perceber sua verdadeira dimensão territorial — e, às vezes, sem perceber também a enorme quantidade de países que existe dentro dela.

Esse episódio contemporâneo oferece uma boa oportunidade para olhar o continente de outra maneira. A África não é apenas uma grande área colorida em um mapa-múndi, muito menos uma realidade política homogênea. Estamos falando de dezenas de Estados soberanos, centenas de povos, inúmeras línguas, diferentes sistemas políticos, ambientes naturais muito variados e histórias que não podem ser resumidas simplesmente pelas palavras “colonização”, “savana” ou “pobreza”.

Quem quiser acompanhar a notícia que motivou esta abertura pode consultar a reportagem: UN approves resolution in support of map that shows Africa’s true size , publicada pela Reuters em 4 de setembro de 2026.

Antes de contar países, precisamos resolver uma questão que costuma passar despercebida: o que exatamente estamos chamando de continente?

Parece uma pergunta simples, mas não existe um único modelo continental utilizado em todos os países.

No Brasil, é tradicional o modelo de seis continentes: América, África, Europa, Ásia, Oceania e Antártida.

Em boa parte do mundo anglófono, América do Norte e América do Sul são consideradas continentes separados, produzindo um modelo de sete continentes.

Esse assunto já foi desenvolvido no DaAula no artigo Quantos continentes existem no mundo? Entenda as divisões e por que há diferentes interpretações .

O importante aqui é compreender que essas diferenças de classificação não alteram uma característica bastante marcante da África: quando consideramos os países soberanos membros das Nações Unidas associados ao continente, nenhum dos outros continentes tradicionais reúne uma quantidade maior de Estados.

Um continente formado por dezenas de Estados

Segundo informações da própria Organização das Nações Unidas, 54 países africanos fazem parte da ONU.

Esse número é frequentemente utilizado em materiais didáticos, atlas e comparações internacionais.

É por isso que encontramos com tanta frequência a afirmação de que a África possui 54 países.

ÁFRICA → 54 países membros das Nações Unidas

A lista inclui desde países territorialmente enormes, como Argélia, República Democrática do Congo e Sudão, até pequenos Estados insulares como Seychelles, Maurício, Comores e São Tomé e Príncipe.

Mas então encontramos uma curiosidade.

A União Africana, organização continental criada em 2002 como sucessora da Organização da Unidade Africana, informa possuir 55 Estados-membros.

Alguém pode olhar para os dois números e pensar: “Pronto, uma das fontes está errada”.

Não está.

Estamos diante de critérios institucionais diferentes.

A União Africana inclui entre seus membros a República Árabe Saaraui Democrática. Já o Saara Ocidental permanece classificado pelas Nações Unidas como um Território Não Autônomo, cujo processo de descolonização permanece pendente.

Por isso, em questões escolares, a resposta mais comum é 54 países africanos quando o critério utilizado são os Estados africanos membros da ONU. Ao tratar da União Africana, porém, encontraremos 55 membros. Antes de concluir que dois números se contradizem, verifique o critério utilizado.

Essa diferença é um excelente exemplo de como a Geografia política lida com situações que nem sempre cabem perfeitamente em listas fechadas.

A África não nasceu dividida nos países atuais

O mapa político africano que conhecemos hoje é relativamente recente.

Muito antes da colonização europeia dos séculos XIX e XX, existiam no continente reinos, impérios, cidades, confederações, comunidades políticas descentralizadas e extensas redes comerciais.

Gana, Mali e Songhai foram grandes formações políticas da África Ocidental em períodos diferentes. O Reino do Congo estabeleceu relações diplomáticas com europeus a partir do século XV. A Etiópia possuía uma longa tradição estatal própria. Ao longo da costa do Oceano Índico, cidades suaílis participavam de redes comerciais que ligavam a África à Península Arábica e à Ásia.

Ou seja, o continente não estava esperando que potências estrangeiras chegassem para “organizar” seu território.

O que aconteceu principalmente no final do século XIX foi uma enorme expansão do domínio colonial europeu.

Reino Unido, França, Portugal, Bélgica, Alemanha, Itália e Espanha passaram a controlar diferentes áreas do continente.

As fronteiras coloniais foram estabelecidas por tratados, ocupações militares, acordos diplomáticos e negociações entre potências que frequentemente não respeitavam divisões políticas, culturais e linguísticas preexistentes.

Depois da Segunda Guerra Mundial, esse sistema entrou em rápida transformação.

Movimentos nacionalistas africanos pressionaram pela independência e o processo de descolonização ganhou grande força nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

O ano de 1960 tornou-se especialmente simbólico. A ONU registrou uma das maiores expansões de sua história naquele período, com numerosos territórios africanos conquistando independência e ingressando na organização.

Você pode aprofundar esse processo no material From Independence to Long-term Stability: United Nations Efforts in Africa .

Quando a Organização da Unidade Africana foi criada, em 1963, já reunia 32 Estados africanos independentes.

Isso ajuda a dimensionar a velocidade das transformações políticas ocorridas naquele período.

Por que as antigas fronteiras coloniais permaneceram?

É comum ouvir a explicação de que “as fronteiras africanas foram desenhadas pelos europeus”.

A frase possui fundamento histórico, mas precisa ser tratada com cuidado.

Nem todas as fronteiras surgiram exatamente da mesma maneira, e os Estados africanos independentes também tomaram decisões políticas sobre o que fazer com os limites herdados.

Em 1964, os chefes de Estado da Organização da Unidade Africana aprovaram uma resolução comprometendo-se a respeitar as fronteiras existentes no momento em que cada país alcançou sua independência.

A decisão tinha uma razão prática.

Se cada novo Estado começasse a reivindicar territórios com base em antigos reinos, grupos linguísticos ou diferentes interpretações históricas, praticamente todo o mapa continental poderia entrar em disputa.

A manutenção dos limites existentes não eliminou conflitos fronteiriços, naturalmente, mas procurava impedir que a independência fosse seguida por uma reorganização territorial permanente.

COLONIZAÇÃO

FRONTEIRAS COLONIAIS

INDEPENDÊNCIAS

MANUTENÇÃO DE GRANDE PARTE DOS LIMITES HERDADOS

A resolução original da Organização da Unidade Africana pode ser consultada no arquivo oficial da União Africana .

É importante não transformar isso numa explicação automática para todos os problemas políticos africanos contemporâneos.

Fronteiras herdadas do colonialismo são relevantes, mas conflitos atuais também envolvem instituições estatais, disputas econômicas, recursos naturais, interesses internacionais, movimentos sociais, decisões políticas internas e inúmeros outros fatores.

Falar em “África” não significa falar de uma única realidade

Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes do tema.

Dizemos frequentemente:

“a cultura africana”;

“a economia africana”;

“o povo africano”.

Essas expressões podem ser úteis em determinados contextos, mas tornam-se perigosas quando dão a impressão de que mais de cinquenta países compartilham uma única realidade social.

Pense no tamanho da generalização.

Seria estranho falar em uma única “cultura americana” para descrever da mesma maneira Brasil, Canadá, Jamaica, Bolívia e México.

Com a África acontece algo semelhante.

Egito, Nigéria, Etiópia, Senegal, Angola, África do Sul, Madagascar e Seychelles pertencem ao mesmo continente, mas possuem histórias, idiomas, religiões, paisagens e sistemas políticos muito diferentes.

A própria União Africana organiza seus membros em cinco grandes regiões:

Região Exemplos de países Características geográficas gerais
África Setentrional Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Tunísia Sahara, Mediterrâneo e forte ligação histórica com o Norte da África e o mundo árabe
África Ocidental Nigéria, Senegal, Ghana, Mali, Costa do Marfim Grande diversidade climática, do Sahel às áreas tropicais úmidas
África Central Camarões, Gabão, Chade, República Democrática do Congo Bacia do Congo e extensas áreas de floresta tropical
África Oriental Etiópia, Quênia, Tanzânia, Somália, Uganda Grandes lagos, Vale do Rift, planaltos e costa do Índico
África Austral África do Sul, Angola, Moçambique, Namíbia, Botswana Desertos, planaltos, savanas e áreas subtropicais

Essas regiões também são simplificações.

Dentro de cada uma existem diferenças enormes.

Ainda assim, a divisão ajuda a perceber que falar do continente como se fosse uma única unidade cultural é insuficiente.

O mapa também pode distorcer nossa percepção da África

Voltamos então à notícia que abriu este texto.

Uma projeção cartográfica precisa transformar a superfície aproximadamente esférica da Terra em uma superfície plana.

Isso sempre produz algum tipo de distorção.

A famosa projeção de Mercator, criada no século XVI, possui enorme utilidade histórica para a navegação porque preserva ângulos e direções locais.

O problema aparece quando ela é utilizada como mapa-múndi para comparar áreas.

Regiões próximas aos polos ficam visualmente ampliadas.

Regiões próximas ao Equador aparecem proporcionalmente menores.

Por isso, a Groenlândia parece em muitos mapas ter dimensão comparável à África, apesar de o continente africano possuir uma área aproximadamente 14 vezes maior.

A resolução aprovada pela ONU em setembro de 2026 promove o uso de projeções de área equivalente, como a Equal Earth, em contextos educacionais, institucionais e digitais.

Isso não significa que a projeção de Mercator tenha sido “proibida”.

Ela continua útil em determinadas aplicações, especialmente aquelas relacionadas à navegação.

A questão é escolher a projeção de acordo com aquilo que queremos representar.

Um mapa não é uma fotografia neutra do planeta. Ele é uma representação construída segundo determinadas escolhas matemáticas. Perguntar “qual projeção está sendo utilizada?” é tão importante quanto perguntar “o que este mapa está mostrando?”.

O Equador atravessa uma parte importante do continente

A África também oferece uma boa oportunidade para conectar diferentes conteúdos de Geografia.

A Linha do Equador atravessa o continente na sua porção central.

Entre os países africanos cujas terras são cortadas pelo paralelo de 0° estão São Tomé e Príncipe, Gabão, República do Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia e Somália.

Esse assunto é desenvolvido no artigo do DaAula Linha do Equador: o que é, quais países atravessa e sua importância .

A posição latitudinal ajuda a compreender parte da diversidade climática africana.

Nas proximidades do Equador encontramos áreas de elevada temperatura média, florestas tropicais e regimes de chuva associados à circulação atmosférica equatorial.

Ao avançarmos em direção ao norte, aparecem regiões de savana, o Sahel e, depois, o enorme Deserto do Saara.

No extremo norte, áreas mediterrâneas apresentam características climáticas muito diferentes.

No sul do continente ocorre novamente uma sucessão de ambientes tropicais, subtropicais e desérticos.

Por isso, a imagem de uma África formada apenas por “savana com animais” é geograficamente muito pobre.

Há florestas equatoriais, desertos, montanhas, grandes lagos, áreas mediterrâneas, arquipélagos, zonas úmidas e extensas regiões agrícolas e urbanizadas.

Nem todos os limites continentais são tão simples quanto parecem

Existe ainda um bom exemplo na ligação entre África e Ásia.

O Egito é normalmente classificado como país africano porque a maior parte de seu território e sua capital, Cairo, encontram-se na África.

Mas a Península do Sinai está geograficamente situada na Ásia.

O país é, portanto, transcontinental.

Esse detalhe é desenvolvido no artigo Qual País Fica na Europa e na Ásia? Entenda o Caso da Divisão , no qual mostramos por que os limites continentais nem sempre correspondem a barreiras naturais absolutas.

Isso também ajuda a entender por que listas de países por continente podem apresentar pequenas diferenças conforme a fonte.

Rússia, Turquia, Cazaquistão e Egito são exemplos de Estados cuja localização atravessa limites continentais convencionais.

Por isso, quando uma fonte apresenta um número ligeiramente diferente de países europeus ou asiáticos, é importante observar como ela classificou esses casos.

Na África, porém, a posição de destaque permanece: considerando os Estados africanos membros da ONU, o continente reúne 54 países.

Por que existem tantos países no continente?

Não existe uma única causa.

O número atual de Estados é resultado de uma longa combinação de processos.

Existiam organizações políticas africanas antes da colonização.

As potências europeias reorganizaram grande parte do território em diferentes colônias.

Movimentos nacionalistas transformaram muitos desses territórios coloniais em Estados independentes ao longo do século XX.

Os novos governos decidiram, em grande medida, preservar as fronteiras herdadas no momento da independência.

Alguns Estados também passaram posteriormente por separações ou reorganizações.

O caso mais recente de criação de um novo país africano reconhecido internacionalmente é o Sudão do Sul, que se tornou independente do Sudão em 2011 e ingressou nas Nações Unidas naquele mesmo ano.

Portanto, o mapa político nunca deve ser visto como algo eterno.

As fronteiras que encontramos hoje são resultado de acontecimentos históricos.

Isso vale para a África e para qualquer outro continente.

Aliás, talvez essa seja a ideia mais importante para levar desta discussão.

Quando observamos um mapa, costumamos enxergar linhas prontas.

A História nos ajuda a enxergar os processos que produziram essas linhas.

E a Geografia nos ajuda a compreender o que acontece dentro, entre e através delas.

Para quem estuda continentes, países e localização geográfica, um atlas continua sendo uma das ferramentas mais úteis. Uma opção é o Atlas Escolar Geográfico Atualizado 2026 — Mapas do Brasil e do Mundo, que pode ajudar especialmente em exercícios envolvendo continentes, fronteiras, capitais e localização relativa. Você pode consultar atlas geográficos disponíveis na Amazon . O link utiliza o identificador de afiliado daaula-20 e pode gerar comissão para o DaAula em compras qualificadas, sem custo adicional para o comprador.

Referências

  1. REUTERS. UN approves resolution in support of map that shows Africa’s true size. Reportagem publicada em 4 de setembro de 2026 sobre a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas que incentiva o uso de projeções cartográficas capazes de representar de maneira mais fiel as dimensões da África e de outras massas terrestres. Disponível em: Reuters .
  2. UNITED NATIONS — DAG HAMMARSKJÖLD LIBRARY. How many African countries are members of the United Nations? Fonte utilizada para a contagem de 54 países africanos membros da ONU. Disponível em: United Nations — Ask DAG .
  3. UNITED NATIONS STATISTICS DIVISION. Standard country or area codes for statistical use — M49. Sistema utilizado pelas Nações Unidas para organizar países e áreas segundo regiões e sub-regiões geográficas. Disponível em: United Nations Statistics Division .
  4. AFRICAN UNION. Member States. Fonte oficial para os 55 Estados-membros da União Africana e para sua organização em cinco regiões geográficas. Disponível em: African Union .
  5. UNITED NATIONS. Western Sahara — The United Nations and Decolonization. Material utilizado para esclarecer a condição do Saara Ocidental como Território Não Autônomo na estrutura das Nações Unidas. Disponível em: United Nations .
  6. UNITED NATIONS. From Independence to Long-term Stability: United Nations Efforts in Africa. Material sobre o processo de descolonização africana e a grande expansão de novos Estados independentes no sistema internacional durante a segunda metade do século XX. Disponível em: United Nations .
  7. ORGANIZATION OF AFRICAN UNITY. Resolution AHG/Res. 16(I) — Border Disputes Among African States. Resolução aprovada em 1964 na qual os Estados-membros reafirmaram o compromisso de respeitar as fronteiras existentes no momento da independência. Disponível em: Arquivo da União Africana .
  8. DA AULA. Quantos continentes existem no mundo? Entenda as divisões e por que há diferentes interpretações. Conteúdo relacionado para compreender os modelos de seis e sete continentes e as diferentes convenções utilizadas na Geografia. Disponível em: Acessar o artigo .
  9. DA AULA. Linha do Equador: o que é, quais países atravessa e sua importância. Conteúdo relacionado sobre os países africanos atravessados pela latitude de 0° e sobre a organização espacial do planeta em hemisférios. Disponível em: Acessar o artigo .
  10. DA AULA. Qual País Fica na Europa e na Ásia? Entenda o Caso da Divisão. Artigo complementar utilizado para explicar países transcontinentais e o caráter convencional de alguns limites entre continentes. Disponível em: Acessar o artigo .

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *